sábado, 19 de junho de 2010

Cafundó


Há um tempinho, eu consegui trazer um professor meu pra fazer uma visita aqui no blog, o professor Marum lá da minha faculdade de Direito, e o cara curtiu tanto que, na terça-feira seguinte, ele me trouxe um filme pra eu assistir. Era o Cafundó. Meu namorado já tinha me falado pra ver esse filme, e uma outra professora lá da faculdade também fez uma indicação geral pra turma pra ver ele. Todos por motivos diferentes. A professora Daniela estava fazendo a gente ler Casa grande e senzala e Darcy Ribeiro, e queria que a gente observasse a coisa das relações de raça no fim do XIX, começo do XX. Meu namorado queria que eu visse por causa do João de Camargo, por ser um cara espiritualizado. O Marum? O Marum queria que eu visse ele no filme! "Depois você olha nos créditos finais e vê o que foi que eu fiz no filme."

Eu copiei o DVD dele e, na hora de ler os créditos finais, eles estavam fora de foco. Não sei o que foi que o Marum fez, se foi algum tipo de consultoria ou apoio. Manti os olhos bem abertos durante todo o filme procurando ele e não encontrei. Então, se foi figuração o que ele fez, só pode ter sido a mulher barbada.


O Paulo Betti me desculpe, mas, como execução, o filme tá bem fraquinho. A história é bacana e vocês vão ver quanta discussão o filme rende. Mas tá bem chatonildo. Mesmo assim, eu recomendo que vocês vejam, pela história, pela discussão. Especialmente se você for sorocabano, porque daí faz parte da sua história. Quando a gente é sorocabano, tem que fazer essas coisas, passear no Campolim, saber o que é um muar, assistir filme do Paulo Betti...

O João de Camargo é uma figura religiosa sorocabana. Meio espírita, meio candomblé, meio católico (adoro gente de três metades). Ele era meio curandeiro, meio milagreiro, meio santo. E fundou aqui uma Igreja que existe até hoje. A localização da capela é a coisa mais louca. Eu já sabia há muito tempo do João de Camargo, e também passei bastante tempo com o filme do Marum esperando na fila pra ser visto (antes de ver o filme, eu precisava terminar as leituras da matéria dele, viu, professor?), mas não sabia da tal da capela. Descobri do jeito mais prosaico. Eu estava no ônibus indo pro Campolim (coisa de sorocabano) e ouvi um homem pegar o celular e dizer "Já estou chegando aí, estou no ônibus, já, aqui do lado da igreja do João de Camargo." Aí eu olhei pro lado, e, sabe qual é a capela do Senhor do Bonfim João de Camargo? É aquela azul e branquinha, com o jardim bonitinho, que fica com desnível da rua lá na Barão de Tatuí! Minha vida inteira eu passei do lado dela e não sabia qual era!


O filme chama Cafundó por que o João morou um tempo lá. O Cafundó é uma comunidade remanescente de quilombo que fica em Salto de Pirapora, município a uns 50 quilômetros daqui. É uma comunidade antiquíssima, que passou a maior parte do tempo escondida da sociedade comum. Quando "acharam" eles lá, em 1978, eles não estavam no século XX, e falavam um dialeto diferente. Imagina só!

Eu fui pra lá uma vez, no meio da campanha que eles estavam fazendo lá pra conseguirem a posse da terra que ocupam há mais de 150 anos. A questão é que eu não me lembro com que grupo eu fui, se foi algum passeio de alguma organização negra sorocabana, ou algum grupo político. Eu lembro de ter visto um ritual religioso que me impressionou horrores (eu nunca fui em terreiro de candomblé nem nada parecido, tudo que eu vi de ritual religioso foram umas missas e, mesmo assim, bem poucas), com música e dança e roupas especiais. Lembro que foi lá a última vez que andei a cavalo. Quase caí. Isso foi há mais de dez anos.

Saiu esses dias o Estatuto da Igualdade Racial. A questão da posse da terra por comunidades remanescentes de quilombos ficou de fora. Ali no Cafundó, a coisa deu certo, depois de muita luta. Eu li na internet que a comunidade, que ocupava tradicionalmente 218 hectares, ganhou em 1976 a posse de 21 hectares. Bonita coisa pra uma sociedade agrícola. Continuaram batalhando e, finalmente, em 2004, conseguiram os 218 hectares que eram deles e haviam sido ocupados, ao longo do tempo, por fazendeiros da região. O artigo menciona mortes dos dois lados.

Uma vez eu tomei uma cerveja com uma mulher que participou da figuração do Cafundó, dançando. Conheci ela ali no Bozó, que fica, aliás, pertinho da igreja do João de Camargo. Era carnaval, e a gente já estava bem trilili, cantando samba e tudo o mais, quando o papo do Cafundó surgiu. Ela falou que fez o filme e eu falei que tinha ido lá. Ela ficou passadíssima, dizendo que queria ir muito lá, como se, de alguma maneira, o quilombo fosse parte da origem dela. Acho improvável, considerando que é um grupo fechadíssimo de umas 20 famílias, mas a questão é que o Cafundó virou parte da tradição negra por aqui. Pode não ser vistoso como Palmares, mas o Domingos Jorge Velho não achou esse aqui.

Cafundó (2005)
Drama, 100 min.
Direção: Clóvis Bueno e Paulo Betti
Roteiro: Clóvis Bueno
Atores: Lázaro Ramos, Leona Cavalli, Leandro Firmino, Francisco Cuoco, Flávio Bauraqui, Alexandre Rodrigies, Luis Melo


Em tempo: piadas à parte, o professor Marum me informou ontem, depois da prova, que foi dureza, que ele ajudou a financiar o filme, por ter achado o projeto bacana e ser amigo do Paulo Betti. Me disseram que o filme demorou à beça pra sair por causa da dificuldade de levantar a grana pra financiar, mas finalmente rolou, em parte por ajuda do Marum. Três vivas!

DOWNLOAD AVI

6 comentários:

  1. Mais um filme brasuca que não vi. Salto de Pirapora fica a 25km de Sorocaba. Não conheço, mas um dia me recomendaram entrar na capela do João de Camargo. Vai lá e depois me conta.
    Quanto a nova cara do blog, gostei, ficou mais clara. Mas eu gostava da antiga também.

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  2. Aeee Teresa,
    Passando pra da um oi e da uma prestigiada

    Bjs, Lucas (ESD) rs

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  3. aeeee, lucas!! valeu por passar aí.
    tá vendo como a propaganda É a alma do negócio?

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  4. Cara Teresa, minha participação como "financiador" foi irrelevante. Queria que você visse o filme pela história mesmo. Como amante da história, fico emocionado ao ver Sorocaba antiga e personagens que hoje são nome de rua. A cena em que Monsenhor João Soares dá a mão ao ex-escravo João de Camargo e o tira da sarjeta é de arrepiar.
    - Padre, como deve ser a face de Deus?
    - Há de ser terrível, meu filho!

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  5. Depois de muito tempo que copiei o filme alugado na Blockbuster, finalmente assisti o filme CAFUNDÓ. Foi um achado pois nunca ouvi sequer comentários sobre a obra. Gostei e me emocionei. Em breve farei uma programação de final de semana para conhecer a comunidade onde se encontra a capela e irei até o Cafundó... Parabéns a todos vocês que tornaram acessível o projeto do filme...

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    1. Joseana, a capela não fica na comunidade, fica no coração de Sorocaba, q tem 700 mil habitantes. Venha, vale a pena. O endereço vc acha na internet, é na avenida Barão de Tatuí. A comunidade fica num município vizinho, Salto de Pirapora. Não é um quilombola idílico cheio de negros históricos, é uma comunidade multirracial que está em um proceso muito delicado de luta pela terra, mas quem tem sua cultura própria, bem bacana.

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