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domingo, 15 de maio de 2011

Terra em transe



Senhoras e senhores, meu primeiro Glauber. Agora sim posso ostentar com propriedade a foto do bocudo aí em cima no título do blog.

Eu francamente não estava entendendo muita coisa do filme. Mal-e-mal o suficiente para acompanhar o enredo. Pensei então que depois do segundo ou terceiro Glauber eu pegava o jeito da coisa e ia entendo, mas depois pensei também que a arte não deve ser um estudo. Um filme deve ser suficiente pra falar por ele, não deve ser parte de uma obra pra fazer sentido, como o capítulo 16 depende do capítulo 15 no meu Curso de Direito Civil.
Abri meu coraçãozinho e encarei o filme.

Terra em transe é a história de um sujeito politicamente desajustado. Ele surge sob as asas de um figurão, pede pra se libertar dele, acaba no lado do outro figurão, esse uma pegada mais PT, se decepciona, larga tudo pra beber, é requisitado pra voltar, desmonta e fode a coisa toda pra todo mundo. Ai o primeiro figurão é eleito presidente, e o camarada desajustado é traído, assassinado, vencido.

Ele não é moral, ele não é heroico, ele não gosta de figurão, nem de burguês, nem de povo. Ele está tão perdido quanto eu ou você, mas a diferença é que ele está envolvido, na coisa toda, até o pescoço.

O país metafórico do filme (será que usei a figura de linguagem certa?) chama-se Eldorado, que é mencionado em outros filmes do Glauber (ouvi falar), e me lembrou um pouco Cartas chilenas, do Tomás Antônio Gonzaga. Ele escreve sobre os abusos de um governador no Chile que lembra muito, estranhamente, o governador de Minas Gerais na época da derrama, às vesperas da Revolução Mineira, que deu merda e acabou virando a Inconfidência Mineira. E é assim, com metáforas, simbolismos e meio artístico elitizado (trabalhado e trabalhoso), que se escapada da censura. Entenderam?

Eu consegui entender, com esse primeiro filme, por que é que o Glauber se auto-afirmava, aos gritos, tanto como um grande gênio do cinema brasileiro. E entendi também por que é que tão pouca gente concordava. O camarada não é fácil. Mas a pipoca apimentada me manteve desperta.

Ademais, agora quebrei o encanto. Posso ver os outros filmes do Glauber sem receio, e acredito que até mesmo um Tarkóvski. Quem sabe, com treino, consigo até ficar acordada um filme inteiro do David Lynch!

Terra em transe (1967)
Drama, 107 min.
Direção: Glauber Rocha
Roteiro: Glauber Rocha
Atores: Jardel Filho, Paulo Autran, José Lewgoy, Glauce Rocha, Paulo Gracindo, Hugo Carvana, Danuza Leão, Jofre Soares, Modesto de Sousa, Mário Lago, Flávio Migliaccio, Telma Reston, José Marinho, Francisco Milani, Paulo César Pereio, Emanuel Cavalcanti, Zózimo Bulbul, Antonio Câmera, Echio Reis, Maurício do Valle, Rafael de Carvalho, Ivan de Souza


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sábado, 3 de julho de 2010

Garrincha, alegria do povo


Em dia de eliminação da Copa do Mundo, achei que fazia sentido assitir um filme sobre futebol. Mais um do Joaquim Pedro, Garrincha, alegria do povo foi o primeiro documentário esportivo do Brasil. É um média metragem de 60 minutos, a metade deles pelo menos com imagens das copas de 1958 e 1962, cheias de gols incríveis de Garricha e Pelé. Aliás, foi inspirada por essa obra do Quinzinho que eu botei o Garrincha nessa imagem aí no topo do blog. Esse moço aí com a bola no pé, entre a bandeira do Brasil império e o Glauber Rocha, é o Garrincha.

O filme informa que o Garrincha era "guloso e com tendência a engordar" e que era rebelde nos treinos de preparo físico, no Botafogo. Eu fiquei olhando aquilo e pensando, se fosse hoje, um jogador assim, o Dunga não tinha escalado! Tinha ido pra Copa do Mundo sem Garrincha! Não tinha?

Na final da Copa de 58, ano que ganhou o primeiro título, o Brasil tinha maior famão de perdedor de finais.

Os comentaristas internacionais (...) não indicavam favoritos, mas achavam que se a Suécia fizesse o primeiro gol ganharia o jogo, porque os brasileiros iam perder a cabeça na certa.

E a Suécia fez o primeiro gol. Mas ao invés de se desestruturar, como fez a selecinha do Dunga ontem, o Brasil reagiu, o Garrincha fez bonito, o Pelé finalizou e a seleção de 58 saiu campeã com 5x2 em cima dos suecos.

A Copa de 62 foi mais dramática. Garrincha, gordinho e desinspirado, não deu o ar da graça nos dois primeiros jogos. O Pelé foi que meteu 2x0 nos mexicanos, e depois, contra a Tchecoslováquia no segundo jogo, distendeu a virilha e ficou de fora o resto da Copa. Sem Pelé, a brasileirada tava tensa no terceiro jogo contra a Espanha, mas Garrincha tomou chá de "encontrei-me" e praticamente ganhou a Copa sozinho. Salve Mané.

O futebol exerce sobre a emoção do povo um poder que só se compara ao poder das guerras. Leva o país inteiro da maior tristeza à maior alegria. Para explicar esse fenômeno, há duas teorias. Uma diz que a bola de futebol é um símbolo do seio ou do ventre materno, de modo que se compreende o ardor com que os jogadores disputam o jogo e a preocupação dos torcedores com o destino da bola. A outra teoria, mais sensata, diz que o povo usa o futebol para gastar o potencial emotivo que acumula por um processo de frustração na vida cotidiana. O universo lúdico do estádio é um campo mais cômodo para o exercício das emoções humanas. O último apito do juiz devolve o torcedor a sua realidade, aos caminho que vão e partem da segunda-feira até que o ciclo se feche com o primeiro apito dum novo jogo.

O Quinzinho passa a maior parte do tempo falando de Mané Garrincha, de Copas vencidas e da admiração do povo pelos jogadores até que, no minuto 45 do filme, ele entra com esse texto aí em cima e começa a desconstruir a imagem fofa que tinha estando montando. Imagem de violência extrema atrás de imagem de violência extrema, no campo e na arquibancada, seguida de uma moçada toda sorridente, e finalmente deixando o estádio e voltando pra ele no domingo seguinte, Quinzinho fecha o documentário numa clave crítica. Será mesmo legal manter o povo assim na sina de exercer sua emoções humanas num estádio de futebol? Ou seria melhor a gente aprender mais que logo a se libertar do ciclo do apito a apito e aprender a ser gente?

Agora então que acabou a Copa, melhor voltar a falar de arte e de política, né?


Garrincha alegria do povo (1963)
Documentário, 58 min.
Direção: Joaquim Pedro de Andrade
Roteiro: Joaquim Pedro de Andrade, Luiz Carlos Barreto, Armando Nogueira, Mário Carneiro, David Neves


E com vocês, a palavra dos especialistas. Sobre Garrincha, alegria do povo, Dom Glauber Rocha:

GARRINCHA E A VERDADE 
Glauber Rocha

Analisar Garrincha oferece os dados finais para concluir um capítulo sobre as origens do Cinema Novo no Brasil; dispensa ao mesmo tempo, diante do próprio filme, perguntas e respostas precipitadas sobre o que é este Cinema Novo. Garrincha é o novo cinema nacional, assim como Vidas Secas e Sol sobre a Lama. Poderia caracterizá-lo como um cinema de autor realizado numa expressão técnico-estética, onde idéia e mise-en-scène significam um corpo ativo de realismo crítico. (...) Garrincha é um tipo de cinema-verdade e não cinema-verdade como um tipo de cinema. Exigindo um rigor terminológico, eu proponho o cinema de autor como cinema-verdade: para situá-lo como síntese Cinema Novo.  

E Sêo Nelson Rodrigues:


À SOMBRA DAS CHUTEIRAS IMORTAIS
Nelson Rodrigues


(...) Amigos, eu tenho a maior desconfiança de qualquer documentário pelo seguinte: – o documentário é o mais burro dos gêneros. Isso por um lado. Por outro lado, o verdadeiro documentário é a poesia. Ou o sujeito recria poeticamente as coisas ou naufraga num pires d'água. (...) Se me perguntarem o que me impressionou mais na fita, eu diria: – as caras. Com a meticulosa, obsessiva paciência de um Proust visual, o Joaquim Pedro andou catando, no Maracanã, as reações fisionômicas da torcida. No ser humano, só a cara importa e o resto é paisagem. E, na fita, o que vemos é a máscara humana na sua infinita variedade. Uma coisa vos digo: – não há Nápoles, não há rio, ou mar, ou Via Láctea, ou aurora, ou poente que seja tão patético como as caras desdentadas que o Joaquim Pedro descobriu.

Ambos textinhos na página do filme no delicioso site da Filmes do Serro!


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quarta-feira, 16 de junho de 2010

Os inconfidentes


Mais um longa do Joaquim Pedro. Este aqui é muito bacana. É um drama histórico sobre... a Inconfidência Mineira, nenhuma surpresa até aí. Foi feito com a habitual qualidade dos filmes do Quizinho (por que eu e êle agora estamos superíntimos, precebe?) e também com algumas cenas loucas que denunciam o Cinema Novo, das quais minha preferida é a cena de abertura, porque fala da mesma coisa que sempre mais me assombrou na história da Inconfidência: a idéia do Tiradentes apodrecendo, aos pedaços, no caminho de Vila Rica até a corte.


É um filme bem bacana este, recomendo muito e acho que vai agradar muita gente. Tem crítica aberta ao Tiradentes, o Tomás Antônio diz dele "Aquele fanático me aborrece. Não quero vê-lo". Serve bem pra quem gosta de duvidar do Tiradentes pelo hábito de duvidar de quem apontam como herói. O que é um hábito muito saudável, mas, guardando-se as proporções, não vejo muito problema em cultivar um ou dois heróis nacionais. Faz bem, pra quem tem tradição de lutas inglórias.

Apesar das cenas loucas, que costumam incomodar quem não está educado a assistir, a maior dificuldade dele não está nas imagens - as cenas loucas são poucas -, mas no texto. O Quinzinho (com a ajuda de um Sr. Eduardo Escorel) fez o roteiro todo usando apenas textos dos autos da devassa e de poemas do Cláudio Manoel da Costa, do Tomás Antônio Gonzaga, do Alvarega Peixoto e do Romanceiro da Inconfidência da Cecília Meireles, porque, além de um pão, ele era um homem muito ligado à poesia (suspiro!).

Foi muito bacana ver, na telinha da tevê, o Tomás Antônio Gonzaga em carne e osso acordando o Manoel da Costa justamente com meus versos preferidos das Cartas Chilenas:


AMIGO DOROTEU, PREZADO AMIGO,
ABRE OS OLHOS, BOCEJA, ESTENDE OS BRAÇOS
E LIMPA DAS PESTANAS CARREGADAS
O PEGAJOSO HUMOR, QUE O SONO AJUNTA
CRITILO, O TEU CRITILO É QUEM TE CHAMA:
ACORDA, SE OUVIR QUERES COISAS RARAS.
QUE COUSAS, (TU DIRÁS), QUE COUSAS PODES
CONTAR, QUE VALHAM TANTO QUANTO VALE
DORMIR A NOITE FRIA EM MOLE CAMA?
(...)
ACORDA, DOROTEU, ACORDA, ACORDA;
CRITILO, O TEU CRITILO É QUEM TE CHAMA.
(O texto completo dessa, que é a primeira carta, você acha aqui.)

Você precisam entender que o ciclo árcade de Minas Gerais é um pedaço muito querido meu da literatura brasileira. Sempre fui muito fã desses caras que o Quinzinho pegou e botou na tela usando o Fernado Torres, o Carlos Kroeber e o Luiz Linhares. Vibrei demais. Vibrei também em ver na telinha, com cara de louco e chapéu de três bicos, o senhor da Silva Xavier em pessoa, na pessoa, aliás, do Zé Wilker!

Esse Zé Wilker me pegou de jeito. Sempre conheci ele das novelas da tevê, não cheirava nem fedia, era só mais um ator global pra mim. Tanto fazia como tanto fez. Até que eu vi ele de governador da capitania de Minas (ó! ironia!) no Xica da Silva do Cacá Diegues, mandando muito bem. A partir daí, ele começou a aparecer em toda parte. Até que em Dona Flor eu tive que dar o braço a torcer que o cara é muito bom ator. E requisitadíssimo, por sinal. Só dos que eu me lembro agora, trabalhou com o Joaquim Pedro, com o Cacá Diegues e o com o Bruno Barreto. Quando eu crescer, quero ter um currículo assim também. Fiquei achando ele meio parecido com o John Malkovitch, que que vocês acham?

Lá pro fim do filme, o Quinzinho resolveu usar uns recursos teatrais pra disposição dos atores pra fazer sobrepor umas cenas. Desse jeito, a gente consegue ver o famoso "Dez vidas eu tivesse, dez vidas eu daria" logo antes da entrada da Dona Maria, ainda não louca, que vem pessoalmente recitar pra gente a medonha sentença do Tiradentes. Ela, isto é, a Coroa, meio que perdoa todos os envolvidos, trocando a pena de forca a degredo, menos pro Tiradentes, que era o único que não era figurão na patotinha. Lembram que a profissão dele, além dos bicos de dentista, era alferes? Fui perguntar pro Houaiss, e um alferes é um oficial de patente abaixo do tenente, um segundo-tenente. É o primeiro posto da carreira do oficialato. Não é muito, certo? Se mandar enforcar, esquartejar, pendurar os pedaços daqui até o Rio de Janeiro, ninguém vai sentir muita falta, certo?

Olha aí a sentença do Tiradentes. Para os meus amigos advogados, gente estranha que gosta de ler sentença, o texto integral pode ser encontrado aqui.

Portanto condenam ao Réu Joaquim José da Silva Xavier por alcunha o Tiradentes Alferes que foi da tropa paga da Capitania de Minas a que com baraço e pregão seja conduzido pelas ruas publicas ao lugar da forca e nella morra morte natural para sempre, e que depois de morto lhe seja cortada a cabeça e levada a Villa Rica aonde em lugar mais publico della será pregada, em um poste alto até que o tempo a consuma, e o seu corpo será dividido em quatro quartos, e pregados em postes pelo caminho de Minas no sitio da Varginha e das Sebolas aonde o Réu teve as suas infames práticas e os mais nos sitios (sic) de maiores povoações até que o tempo também os consuma; declaram o Réu infame, e seus filhos e netos tendo-os, e os seus bens applicam para o Fisco e Câmara Real, e a casa em que vivia em Villa Rica será arrasada e salgada, para que nunca mais no chão se edifique e não sendo própria será avaliada e paga a seu dono pelos bens confiscados e no mesmo chão se levantará um padrão pelo qual se conserve em memória a infamia deste abominavel Réu... 

Minha parte preferida é a que manda morrer morte natural para sempre... Me perdoem, só mais um pouquinho. Quero mostrar ainda a sorte do Manoel da Costa, que escreveu uns lindos poemetos.

Ao Réu Claudio Manoel da Costa que se matou no carcere, declaram infame a sua memoria e infames seus filhos e netos tendo-os e os seus bens por confiscados para o Fisco e Câmara Real. 

Olha aqui, tem o texto da Cecília Meireles (para deficiente visuais. ?!). Não tem paciência pra ler poesia? Pra ouvir Chico Buarque você tem, né? Tá aqui, o tema de Os inconfidentes do Chico, feito com poema da Cecília. (Jornalista: "- Chico, o que você acha de ter sido eleito o homem mais sexy do Brasil?" Chico: "- Isso é ridículo! Eu tenho 60 anos!!". Nem tão ridículo assim, meu bem, nem tanto assim...)



Os inconfidentes (1972)
Drama/ Histórico, 100 min.
Direção: Joaquim Pedro de Andrade
Roteiro: Joaquim Pedro de Andrade e Eduardo Escorel
Atores: José Wilker, Luiz Linhares, Paulo César Peréio, Fernando Torres, Carlos Kroeber, Nelson Dantas, Carlos Gregório, Margarida Rey, Susana Gonçalves

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quinta-feira, 22 de abril de 2010

Joaquim Pedro aos pedaços - Brasília, contradições de uma cidade nova

 
Ao excluir de seu seio os homens humildes que a construíram e os que ainda hoje a ela acorrem, Brasília encarna o conflito básico da arte brasileira, fora do alcance da maioria do povo. O plano dos arquitetos propôs uma cidade justa, sem discriminações sociais, mas, à medida que o plano se tornava realidade, os problemas cresciam para além das fronteiras urbanas em que se procuravam conter. Na verdade são problemas nacionais, de todas as cidades brasileiras, e nesta, generosamente concebida, se revelam com insurportável clareza.

Hoje meus alunos se perguntaram, em tom de reflexão - não estavam esperando que eu aparecesse com uma resposta - por que é que o dia de Tiradentes é feriado e o dia do descobrimento não. Eu ensino inglês, e embora estivesse longe, muito longe das minhas atribuições, eu achei que eu podia explicar pra eles que, apesar de o noticiário anunciar que hoje o Brasil fez 510 anos, não havia Brasil de que se falasse até 1822. Eles sabiam tudo, quem era Tomás Antônio Gonzaga e porque só mataram o Tiradentes. Da Revolução Pernambucana em 1817, em busca de uma liberdade pernambucana. Da Independência de D. Pedro I e tudo o mais. Mas ainda não tinham operado o dois mais dois do surgimento tardio do país. Expliquei que o Tiradentes foi feito herói da Independência. 21 de abril é feriado nacional. 22 de abril é uma data que tem sorte de ser lembrada.

Por isso também foi o dia 21 de abril, e não o 22, escolhido para ser a data da inauguração de Brasília. O movimento de que Tiradentes é mártir foi o primeiro a levantar a bandeira da instalação da capital do país no interior. A idéia era justamente a oposta que impulsionou a criação de Brasília: queria-se trazer a capital para mais perto da parte mais dinâmica do "país". Na Praça dos Três Poderes, em um daqueles monumentos, não me lembro mais qual (ou então era a inscrição no saguão do Congresso, realmente não me lembro), está escrito que "o sonho de JK" foi concebida pra seguir direitinho a aspiração que tinha o povo brasileiro desde os 1780. Balela.

Em comemoração, portanto, aos 50 anos de Brasília, resolvi assistir Brasília, contradições de uma cidade nova, um documentário de 22 minutos do Joaquim Pedro de Andrade.

Não é necessário mais repetir o que eu acho da qualidade técnica do Joaquim Pedro. Estou agora convencida de que se trata de um dos maiores intelectuais brasileiros.

Brasília foi feito sob a encomenda de uma loja Olivetti, como conta Bernadet, que ficava na (rua) W3. Depois que o filme ficou pronto, a direção da loja já não estava mais disposta a afrontar o governo (1967 foi o ano do recrudescimento da loucura ditatorial militar). O filme quase que não chega a público. Joaquim Pedro chegou a procurar o Niemayer para pedir ajuda, mas ele, cego, se recusou a acreditar na visão pessimista do curta. Uma cópia salvou-se, ficando arquivada no MAM. Com o lançamento do novo DVD do Macunaíma, em 2006, a Filmes do Serro conseguiu lançar esse curta quase inédito, como um dos extras do DVD. (Fonte: Carlos Alberto Mattos, 2007)

Brasília mostra com cuidado as disparidades da cidade como centro de poder político e de exclusão social, contrária em fato a todo o discurso que a cercava, quase sem tocar na questão da ditadura. O que há é uma entrevista com um nordestino trabalhador da construção civil, explicando que "antes" até tinha uma força do sindicato contra os desmandos das três (que eram na verdade uma) empresas construtoras, mas que depois... ele faz uma pausa... que "tudo mudou", a moçada tinha "pegado medo" de participar do sindicato.

Metade do filme é aquela rasgação pela grande maravilha faraônica que é Brasília, e como é moderna! A outra metade foi rodada em Taguatinga, criada pra que o crescimento desorganizado da cidade em função da população real da cidade não interferisse no projeto arquitetônico. Plano piloto para os pilotos. De candango bastam os dois enfiados no meio da praça.


"Os nossos braços foi que teve que derrubar essa mata, fizemos fogo, faziam fogueiras aqui, pra poder conseguir armar os barracos, ficou pessoas aqui no relento, uma época fria, que morreu crianças aqui de frio, e morreu adulto também."

Uma das coisas em que penso quando penso em Brasília é no Darcy Ribeiro falando no prefácio do O povo brasileiro sobre sua participação na fundação da UnB. Quando fundada, Brasília atraiu o fino do pensamento e da arte brasileiros. Eu quase não quero pensar no que ela é hoje, quanto a esse particular, mas no ano em que o Joaquim resolveu fazer o filme, encontrava-se já em triste situação.

A maior parte dos numerosos intelectuais que afluíram para Brasília atraídos pelo vulto do empreendimento humano e artístico deixou a cidade depois que 230 professores se demitiram da universidade, depois da crise ocorrida em 1965.

Não deixem de visitar Brasília, no entanto. Apesar do clima seco, a cidade é sim linda. E vistá-la, vê-la, é esclarecedor.


Brasília, contradições de uma cidade nova (1967)
Documentário, 22 min.
Direção: Joaquim Pedro de Andrade
Roteiro: Joaquim Pedro de Andrade, Luis Saia, Jean-Claude Bernadet
Narração: K.M. Ekstein


Pra quem quiser ver o filme, ele foi incluído entre os extras do DVD novo de Macunaíma. E a Filmes do Serro, produtora dos filmes do Joaquim Pedro, sempre cuidadosa, providenciou fotos e um trecho do filme disponíveis na página do filme, e também o texto do Jean-Claude Bernadet.

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domingo, 11 de abril de 2010

Amor de leproso: Joaquim Pedro aos pedaços Couro de gato

(Ainda por cima, era um pão!)

Graças a uma contribuição providencial de uma amiga (beijos, Mari!!), que me tem fornecido filmes que estão difíceis de encontrar por aí, eu consegui a coleção de curtas do Joaquim Pedro de Andrade, que compreende:

O mestre de Apipucos (1959)
O poeta do castelo (1959)
Couro de gato (1960)
Cinema Novo (1967)
Brasília, contradições de uma cidade nova (1967)
A linguagem da persuasão (1970)
Vereda Tropical (1977)
O Aleijadinho (1978)

O que é muito conveniente, porque a pobre mim mesma não tem mais tempo de nada. Pois é, não tenho duas horas pra sentar no domingo e ver um filme, mas tenho 15 minutinhos pra ir seguindo a coleção de curtas. Joaquim Pedro aos pedaços.

Couro de Gato


"Quando o carnaval se aproxima, os tamborins não têm preço.
Na impossibilidade de melhor material, os tamborins são feitos com couro de gato."

Couro de gato é um curta de 13 minutos, de 1960. É sobre uns meninos da favela que caçam gatos pra fazer deles couro de tamborim, pra vender pro carnaval. Sem quase nenhuma fala, nem narração (exceto por essa frase aí em cima), Couro de gato é uma história muito bem narrada, o que desmerece ainda mais o Cacá Diegues, que em uma hora e meia de Ganga Zumba não conseguiu contar direito a história. Lembram que eu tinha dito que o Cacá não era nenhum Bertolucci? Bom, Joaquim Pedro manda tão bem na câmera dele que não é necessário compará-lo com Bertolucci. Ele é outra coisa, uma coisa só dele.

A história começa com uma cenas dos meninos caçando gatos pela cidade. Dá muito dó dos bichanos, quando a gente vê a cara de ganância com que os moleques olham pra eles, aqueles gatinhos fofos. Roubam o gato pidonho do resturante de bacana, roubam o gato da vózinha no parque, o da madame na mansão... aí eles saem correndo e a bacanada correndo atrás, polícia e tudo. Quando chega no morro, fica todo mundo lá embaixo, a madame mandando o polícia ir atrás dos garotos, mas o polícia fica só olhando pro morro: lá ele não manda nada.

A câmara mostra o olhar de desconsolo dos bacanas e depois os caminho vazios da favela, por onde os meninos tinham subido, e, finalmente, lá de cima, o moleque do gato da madame, com o bichano no colo. Ele senta pra fumar e comer e fica brincando com o gatinho, branquinho, peludo, lindinho, e aquela criança enamorada do bicho. Ele dá um dos biscoitos contadinhos dele (ele é pobre, não tem muita comida) pro gato, mas na hora que chega no último biscoito, ele tem que tomar a decisão.


Tem que ver a tristeza na cara do menino quando ele entrega o gato pro fazedor de tamborins!

Além de tudo, Couro de gato tem como música-tema o samba Quem quiser encontrar amor, do Geraldo Vandré. E todo mundo sabe que eu adoro filme com tema. E a música é linda!

Coisa linda, esse filme, o melhor até agora, mesmo com seus apenas 13 minutos. Vão ver! Tem uns pedacinhos no youtube, aqui.
A menos que você goste muito de gatinho, aí desrecomendo.


Couro de gato (1960)
Drama, 13 min.
Direção: Joaquim Pedro de Andrade
Roteiro: Joaquim Pedro de Andrade
Atores: Francisco de Assis, Riva Nimitz, Henrique César, Napoleão Muniz Freire, Cláudio Correia e Castro, Milton Gonçalves, Domingos de Oliveira, Paulinho, Sebastião, Aylton, Damião

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terça-feira, 6 de abril de 2010

Ganga Zumba


Ganga Zumba, de Cacá Diegues (posso dizer Cacá ou devo dizer Carlos Diegues?), começa com a morte da mãe do Ganga, ou Antônio, no tronco. O que acontece é que antes de ir pro tronco, sabendo que ia bater as botas, ela chama outro escravo, Anoroba, e dá pra ele o colar dos Ganga, pra provar que o filho dela é filho de Zambi, e príncipe de Palmares. Então o Anoroba dá um jeito de avisar lá em Palmares onde o príncipe está - em boa hora, por que o Zambi tinha acabado de perder o herdeiro dele, morto na guerra - e um guia (o moço da foto do cartaz) vem buscar ele na fazenda.
Bom, só aí leva uma hora.

Eu estava meio seca de vontade de ver esse filme, achando que ia rolar umas cenas de guerra, de revolta escrava, ou de Palmares, ou alguma coisa, mas na verdade eles nem chegam a alcançar Palmares. O filme acaba antes.

Esse filme é da fase que o Cacá Diegues trabalhava com Cinema Novo, antes de "cuspir no prato em que se fez", como disse o Glauber, e se dedicar ao cinema comercial. (No que eu, pessoalmente, não vejo mal nenhum, adorei Xica da Silva.) Uma vantagem que filme do Cacá no Cinema Novo tem sobre a fase comercial é que tem bem menos sexo. De resto o filme é meio lento, tem umas imagens que ficam vários segundos na tela e você fica meio sem saber porque - o Cacá Diegues não é exatamente o Bertolucci, saca? Tem também umas cenas sobrando, sem razão de ser, e apesar disso a história não está perfeitamente narrada, eu e meu namorado ficamos confusos várias vezes, se perguntando "você entendeu o que aconteceu? porque ele falou isso pra ela? quem é esse cara? de onde veio esse outro cara?" e tecéteras.

Então a economia do "texto" não agradou a mim. Grande novidade. Mas não fica aí, no todo o filme é bacana. A história vale a pena ser vista - desde que você não se deixe levar pela esperança de ver batalhas (o Cacá não é muito bom em conduzir cenas de luta, mesmo dispondo de capoeiras finos) ou ser transportado pra dentro do universo de Palmares (eu sei que você tem curiosidade de "ver" esse lugar lendário tanto quanto eu). Mas enfim, a gente aprende uma porção de coisa sobre a realeza palmarense que não se aprende na escola nem em livro do Darcy Ribeiro. E tem o elenco. E tem a música.

Nara Leão.

Sacou?

Uma tristeza que a cópia que eu descolei estivesse tão acabadinha. Mas imagina, o moço faz o filme 50 anos atrás, com a tecnologia que eles tinham lá, aí ele fica apodrecendo no rolo um tempo, aí alguém troca de suporte, passa na televisão, alguém captura essa imagem (tem o selinho do Canal Brasil no canto superior esquerdo), tranforma em data de computador, eu baixo aqui, gravo no DVD em alta velocidade, aí, meu, não tem cópia que aguente, né? Tinha chiado, diversas vezes a tela ficou muito clara ou muito escura (filme P&B) e não dava pra ver nada. Uma grande tristeza mesmo. Acho que eu seria menos chata com o filme se tivesse podido ver ele em todo seu esplendor. Três vivas pro esforço de recuperação dos filmes antigos da Cinemateca Brasileira.

Enfim, flertei um pouco com Cacá Diegues, mas, no que toca o Cinema Novo, ainda torço mais pro time do Joaquim Pedro, até agora.


Ganga Zumba (1964)
Drama, 92 min.
Direção: Cacá Diegues
Roteiro: Cacá Diegues, Leopoldo Serran e Rubem Rocha Filho
Atores: Antônio Pitanga, Léa Garcia, Elizer Gomes, Luiza Maranhão, Jorge Coutinho

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segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

O padre e a moça


Semana cheia, por isso postagem tão demorada. Para coroar uma semana dessa, resolvi assistir finalmente um dos filmes que eu estava mais curiosa para ver, O padre e a moça. Demorei tanto por que não achava companhia. Meu namorado geralmente escapa estrategicamente pela esquerda quando proponho assistir a um filme. Pela esquerda mesmo, da última vez em que propus um filme brazuca, ele preferiu ver Tarkovsky.
Depois desta exposição pública, também, aposto que ele não vai mais tentar escapar das minha sessões pipoca-not-popcorn.

O padre e a moça, de 1965, é uma criação de Joaquim Pedro de Andrade - que eu suspeitava ser o grande artista do Cinema Novo um pouco por intuição, um pouco por já ter ouvido falar e ter visto uns pedacinhos do Mestre de Apipucos na tevê a cabo - baseada num poema de Carlos Drummond de Andrade de 1962. O poema é longuíssimo, por isso, ao invés de copiar ele aqui, ofereço o link. Ainda não li, assim como não li o comentário do próprio Drummond ao filme nem os ensaios publicados numa revista de cinema (o número 42 é dedicado ao filme - site com frames, cliquem em "artigos", se interessados, e escolham), todos encontrados enquanto procurava para vocês o poema, e todos arquivados no site da Filmes do Serro, a produtora de O padre e a moça.








Não li porque ainda não quero contaminar minha própria leitura do filme. Um filme é um filme e deve ser visto como tal. Assim como às vezes a gente quer ler o livro antes de ver o filme (como eu estou esperando para fazer com Um certo capitão Rodrigo (adoro Érico Veríssimo), nas próximas férias), às vezes devemos ver o filme.

O filme começa e eu estranho: ué, mas parece tão simples! Bonitinho, bem-feito, a câmera comportada, o enredo verossímel, nada como os pedaços que eu já vi do Glauber Rocha. Eu me sento então, e vejo, e vou aos poucos percebendo algumas coisas. Como a trilha sonora, feita de muito pouca música e de sons de grilo, pássaros que eu não conheço o nome, tic-tacs de relógio... Conforme o filme se desenrola eu vou vendo. O tempo cronológico é quase irrelevante. Não sei quanto tempo leva entre a chegada do padre novo e o rapto da moça, por exemplo. As cenas se seguem pela seqüencia lógica da história.

Outra coisa é que o filme é todo estruturado de forma circular. Por exemplo, há uma cena em que a moça serve um copo de cachaça para o farmacêutico, e a cena corta para um flashback (uma cena de sexo - ui! - muito bem comportada), e depois ela volta exatamente para a mesma imagem do farmacêutico tomando pinga com o chapéu pendurado do lado. O mesmo acontece na cena de amor entre o padre e a moça. E, finalmente, o padre, depois de fugir com a moça algum tempo pela Serra do Espinhaço, volta para a cidadezinha.

Deveria dizer, volta para a Igreja. Entra atordoado na capela e dorme chorando no chão do altar. Pensei muito em mim mesma com o meu próprio drama de eterno retorno institucional. Eu me identifiquei e fiquei com dó do padre e com raiva de mim, quando o certo era ter se identificado, ficado com raiva do padre ("Porque ele não vai em frente com a coisa? Será que ele não vê que a moça gosta dele?") e ter "operado a catarse própria dessas emoções", como coloca Aristóteles.


O padre e a moça (1965)
Drama, 95 min.
Direção: Joaquim Pedro de Andrade
Roteiro: Joaquim Pedro de Andrade
Atores: Helena Ignêz, Paulo José, Fauzi Arap, Mário Lago, moradores de São Gonçalo do Rio das Pedras

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O padre e a moça

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

O pagador de promessas



Como prometido, comecei com o pagador de promessas do Anselmo Duarte. Primeiro choque, logo na reprodução do menu do DVD: o som.
Eu sei, todo mundo sabe que os filmes brasileiros tinham esse problema com o som até os anos 90. Mas eu tinha esquecido disso. Sem crise, a casa estava vazia, aumentamos bem o volume, e assistimos.

Quem faz a Rosa, a esposa do pagador de promessas (Zé do Burro), é a Glória Menezes. OK. Olhei, olhei e não consegui lembrar quem é a Glória Menezes nos dias atuais. O rosto não correspondia com ninguém que eu tenha visto nas novelas ultimamente. Tive que fazer uma busca google. (Agora deu pra perceber o quanto estou por fora, não?)

Glória Menezes




O filme foi premiado no Festival de Cannes de 1962, então não é nenhuma surpresa dizer que ele é realmente bom. A direção do Anselmo Duarte estava linda, o roteiro é coisa de outro mundo, os atores estavam ótimos, até a trilha sonora merece um elogio. Se eu posso fazer alguma crítica ao filme, é que eu achei que ele tinha muito daqueles elementos de "exótico" pra gringo ver e "sentir a cultura brasileira", como os capoeiras dançando, as baianas cantando pra vender queijo e as imagens do terreiro de candomblé, com as pessoas dançando com as máscaras do ritual. O candomblé, na verdade, tudo bem, tinha função na história, mas a dança dos capoeiras...

Minha parte preferida foi quando o monsenhor chega à igreja de Sta. Bárbara pra resolver com o padre sobre o que fazer com o moço lá fora com a cruz, e a escadaria da igreja está apinhada de gente e todo mundo abre passagem pra ele na mesma hora, ele vestido de preto e de chapéu preto, e a música entra quando ele começa a subir as escadas com cara de mau... meu! Só faltou tocar o tema do Darth Vader!

Curti. Recomendo.



O pagador de promessas (1962)
Drama, 95 min.
Direção: Anselmo Duarte
Roteiro: Anselmo Duarte, baseado na peça teatral de Dias Gomes
Atores:  Leonardo Villar , Norma Bengell, Glória Menezes , Dionísio Azevedo , Geraldo Del Rey 


Ah! Um último comentário. Leonardo Villar, que faz o Zé do Burro, um pão

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