Vi na tevê a cabo o filme sobre o Jean Charles de Menezes, do Henrique Goldman. Bem-feitinho, mas também meio duro de engolir. Ragação de seda, aparência de feito às pressas, análise e crítica social meio que for dummies. Contraditoriamente, recomendo.
Faz já algum tempo, vi também na tevê a cabo um filme sobre duas meninas prostituídas. Um fazendeiro dava uma delas de presente pro filho, depois estuprava ela, aí mandava as duas pra uma cidade de mineiros onde elas foram vendidas por 5 gramas de ouro ou coisa que o valha pra uma fila que durou até o amanhecer, depois elas fugiam pelo mato. Virou meu estômago. Coisa de mau gosto. Vi 15 minutos e estou horrorizada até hoje. Tenho pesadelos. Quem soubre o nome do filme, me avisa.
Tentei ver Glauber Rocha durante as férias. Não muito insistentemente, devo admitir. Deus e o diabo estava com problema na gravação, vou ter que baixar de novo. Terra em transe eu comecei três vezes. Glauber me lembra Tarkovski porque sempre durmo antes do fim dos filmes. Apesar de perceber a importância deles. Acho que sei como se sentem meus alunos quando apareço com um livro novo superimportante pra eles lerem.
Vou continuar tentando.
Gosto mais de Júlio Bressane que de Sganzerla. Mas é mais difícil de conseguir pra baixar.
Começo de semestre, depois que a gente vira adulto, é ainda pior que fim de semestre. Ainda mais quando a gente tem o hábito da procrastinação.
Postar decentemente leva cerca de duas horas. Logo eu volto.
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
terça-feira, 20 de julho de 2010
A família Faria - Assalto ao trem pagador e Lili, a estrela do crime
Farejei aqui uma família bacana do cinema brasileiro. Uma não, duas. Mas vamos por partes, como diria a rainha Dona Maria. Primeiro teve a história do Grande Otelo. Achei que deveria ver uns filmes com ele, grande personalidade do cinema brasileiro como é. Também a Oficina Cultural aqui da minha cidade tem o nome dele, então pra mim é figura antiga, há muito de ver por que fazem tanto barulho a respeito dele. Eu sabia já que ele tinha feito Macunaíma no filme do Joaquim Pedro, mas um filme não basta, ainda mais sendo mais um do Quizinho, que eu já vi tantos, e precisava também ser uma coisa menos do diretor e mais do Otelo, então fui procurar, via Google, o que ver. Acabei achando uma entrevista com o Grande Otelo no Roda Viva, que rendeu até um post.
Só que essa entrevista rendeu muito mais que um post. Parece mentira, rasgação de seda, mas aprendi um bocado de coisa com o Grande Otelo. Por fim, de tanto comentarem lá, no Roda Viva, acabei descobrindo que pra ver Otelo, tinha que ver Assalto ao trem pagador, do Roberto Faria, feito em 1962. Aí é que as coisas começam a se enredar.
Pois bem, eu estava outro dia passeando no blog do Markito e acabei me interessando pelo cartaz de um filme chamado Lili, a estrela do crime. Curti porque estava para ver Matou a família e foi ao cinema, e pensei em fazer uma dobradinha policial. Lili, a estrela do crime é uma romantização da história da Lili Carabina, uma bandidona famosa dos anos 70 e 80, na mesma linha do Luz: de tanto sair no jornal, acabou virando heroína nacional. Rebelde-contestadora. Taí, gostei, pensei. Fora que isso é que é nome de bandido! "Lili Carabina"... Um dia boto esse nome numa gata que eu tiver...
Acontecemente que Lili foi dirigido por um camarada chamado Lui Farias, que é filho do Roberto Faria (o S a mais no nome do Lui é erro de cartório), que foi quem dirigiu Assalto ao trem pagador e se cobriu de prêmios e glória. Quanto às glórias do Lui, se você fizer uma busca Google nele, a primeira informação que vai encontrar é que ele é o marido da Paula Toller, aquela do Kid Abelha (banda que, aliás, fez a trilha sonora do filme). Pra quem é muito moço e não tem amigo quarentão, a Paula Toller é a queridinha de todos os meninos da geração dela e da seguinte, ela era a cobiça de todo mundo, mas quem faturou foi nosso querido diretor Lui Farias. Mandou bem!
No Assalto, o Grande Otelo faz um personagem chamado Cachaça. Não é um dos personagens centrais, mas dá pra ver bem porque elogiam tanto a atuação do Otelo. O Roberto Faria deu até um jeito de botar ele pra cantar e dançar no filme. Formado ator uma parte do no circo e uma parte do Cassino da Urca, onde ele fazia números musicais, Grande Otelo fez nome no cinema no período das chanchadas, ou comédias musicais, aquelas preto-e-branco. Fez uma porção delas! Formado, também, no Coração de Jesus, uma das mais tradicionais melhores escolas de São Paulo, homem cultíssimo, elegantíssimo, vocês tinham que ver, de terno azul marinho e meias vermelhas lá na entrevista do Roda Viva. Nesse filme a gente vê uma cena memorável dele, quando, vendo um caixão de criança, com o respectivo cortejo fúnebre, a pé, descendo o morro, diz: "Quando morre uma criança na favela, todo mundo devia de cantar. É menos um pra se criar nessa miséria."
No filme também está a Helena Ignês, esposa do Rogério Sganzerla, que fez a namorada do Luz Vermelha e a Ângela Carne e Osso no A mulher de todos, que é dele também. É ela quem vai dirigir o roteiro da sequência de O bandido da luz vermelha, que o Sganzerla deixou com ela antes de morrer e que sai, espera-se, ainda este ano, com o Ney Matogrosso no papel principal.
É desnecessário dizer que Assalto ao trem pagador, carregado de prêmios como foi, é um ótimo filme, de altíssima qualidade técnica, com um senhor de um roteiro, personagens bacanésimos e do elenco não precisa nem falar. Mas também Lili, a estrela do crime é um filme jóia. Eu ri, eu ri, assistindo o filme! O figurino anos oitenta, a maquiagem glam rock, os cenários em que a Lili apavora, o barraco cor-de-rosa dela no morro, tudo é muito bom. Mas há que se mencionar o Reginaldo Faria nesse filme, fazendo o detetive que quer prender a Lili. O roteirista fez ele meio maluco, o cenógrafo pirou um pouco mais na batatinha (o apê do detetive...! tem até um consolo em cima da cômoda onde fica o telefone) e o Reginaldo foi na dança, e fez um cara completamente pirado. Mil vivas pra ele que ficou mesmo foi muito bom!
Reginaldo Faria é tio do diretor Lui Faria, irmão, portanto, do Roberto Faria que fez o Assalto, em que o Reginaldo também estrelou. Quando comentei dessa família com um amigo meu, ele disse "é o tipo de família que discute enquadramento na mesa do café da manhã". E com a Paula Toller enfeitando a mesa.
(O personagem principal, a Lili Carabina, quem faz é a Betty Faria, que, apesar do nome, não tem nada a ver com a família em questão.)
A segunda família são os Escorel, filhos de diplomata e queridos do Grande Otelo, mas isso é história pra outro post, depois que eu der lá uma vista nos filme deles.
Assalto ao trem pagador (1962)
Policial, 89 min.
Direção: Roberto Faria
Roteiro: Roberto Faria
Atores: Reginaldo Farias, Jorge Dória, Átila Iório, Ruth de Souza, Helena Ignês, Luiza Maranhão, Dirce Migliaccio, Miguel Rosenberg, Grande Otelo
Lili, a estrela do crime (1988)
Policial, 91 min.
Direção: Lui Farias
Roteiro: Lui Farias, Vicente Pereira, Aguinaldo Silva
Atores: Betty Faria, Reginal Faria, Mário Gomes, Júlio Levy, Miquimba, Colé Santana, João Signorelli, Patrícia Travassos
Dois filmões! Recomendo muito.
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domingo, 11 de julho de 2010
Matou a família e foi ao cinema
"Matou a família e foi ao cinema" é uma das frases mais famosas do cinema brasileiro. É o título de um média-metragem de 1969 de Júlio Bressane. O filme fala desses crimes sem sentido que a gente lê (lia) naqueles jornais de que se dizia "se espremer sai sangue". Aquelas manchetes com uma frase resumindo o caso da maneira mais macabra possível, pra você se espantar e comprar o jornal pra ler a notícia, e quando você ia ver, a manchete completamente distorcia a notícia e você acabava com os crimes mais banais num jornal que sujava sua mão. Tinha quem gostava, desses jornais.
Não é o caso de Júlio Bressane. Ele realmente te entrega a lebre que vendeu. O filme começa com cenas de um apartamente de cidade grande, com uma família de classe média já meio enlouquecida dentro. O filhinho, de uns 30 anos, enche o saco e acaba com papai e mamãe com uma navalha. E em seguida vai ao cinema.
Seguem-se outras história macabras, como as das duas mocinhas que se amavam. A mãe de uma delas descobre, fica fula, ameaça separar as duas e, no dia que pega elas no ato, acaba sendo sufocada pela filha, enquanto a namorada - numa cena bacaníssima - fica sentada numa cadeira, em segundo plano, lixando as unhas. Tem também a história do pai de família malandro e bêbado, que gasta a pouca grana que tem no bar, enquanto a mulher e o filho bebê passam fome em casa. Num belo dia a mulher dele diz que já está cheia, que já achou "quem a sustente" e que ela vai embora. Pai de família macho pode deixar mulher ir embora com outro homem? Dá-lhe pipoco na mulher e no bebê. E depois o cara fica lá sentado, a câmara focada no rosto dele, uma marchinha de fundo, e ele repetindo "Matei por amor! Matei por amor!"
Essas histórias são interferências na história principal, a que a história do moço que mata a família e vai ao cinema é um prelúdio. A história principal, aquele em que o Júlio Bressane passa mais tempo trabalhando, é sobre uma moça rica decidindo se separa ou não do marido chato, sozinha na mansão com a melhor amiga. As duas moças piram sabe-se lá de quê, fazem uma senhora festa (só as duas), e à noite, de pijama, já mais loucas que o batman, acabam se matando enquanto brincam com as armas da coleção do marido chato. O que rende umas cenas muito legais.
A questão é que quando elas tão quase pra se matar, aparece uma interferêcia de uma cena com as duas tranquilamente sentadas num parque, do lado de um carrinho de bebê, e uma delas comenta que foi ao cinema ver um filme nacional com o marido, sobre duas moças sozinhas numa mansão, que faz ela se lembrar "daquela noite em Petrópolis". O filme chamava Perdidos de amor, que era o mesmo filme que o cara vê no cinema depois que mata a família. E a gente fica meio perdido. Essas histórias, "aconteceram" como o assassinato da família louca do moço ou são só o filme que ele está assistindo? Ou talvez só a história das moças que é? E você se pergunta, então, o que é verdade e o que é cinema. No filme.
Confuso, né? Bom, também.
Matou a família e foi ao cinema faz parzinho com O bandido da luz vermelha do Sganzerla, de 1968. Os dois são grandes marcos do Cinema Marginal, que vinha surgindo como uma contraproposta, em tema e estética, ao Cinema Novo. São também dois policiais baseados em notícias de jornal. Em O bandido da luz vermelha, a narração era toda feita de manchetes de jornal da época, sobre o Luz e outras bizarrices que iam acontecendo. A diferença está em que, enquanto o Luz era um bandido-estrela, um rockstar do crime, Matou a família fala sobre crimes ordinários, que acontecem todo dia como pequenas tragédias particulares.
O filme de Júlio Bressane também me faz pensar também naquela música do Chico Buarque chamada justamente Notícia de Jornal, que começa com como se fosse uma manchete: "tentou contra a existência num humilde barracão" e termina com "a dor da gente não sai no jornal". Mostrando mais fatos, mais humanidade nas notícias macabras que a gente lia naqueles jornais "se espremer sai sangue", o Bressane dá conta dessa dor da gente que no jornal nunca sai.
Matou a família e foi ao cinema (1969)
Drama, 80 min.
Direção: Júlio Bressane
Roteiro: Júlio Bressane
Atores: Márcia Rodrigues, Renata Sorrah, Antero de Oliveira, Vanda Lacerda
Se você resolver ver, atenção que tem um remake de 1991 com o Alexandre Frota e a Cláudia Raia, dirigido por Neville D'Almeida. Não vi, não sei se é bom ou não, mas eu tenho o hábito de desconfiar de remakes.
A versão que está rodando na internet tem legendas em italiano. Não atrapalha muito. Eu achei usando um torrent mesmo, mas também dá pra ver no youtube, todinho.
DOWNLOAD TORRENT
sábado, 3 de julho de 2010
Garrincha, alegria do povo
Em dia de eliminação da Copa do Mundo, achei que fazia sentido assitir um filme sobre futebol. Mais um do Joaquim Pedro, Garrincha, alegria do povo foi o primeiro documentário esportivo do Brasil. É um média metragem de 60 minutos, a metade deles pelo menos com imagens das copas de 1958 e 1962, cheias de gols incríveis de Garricha e Pelé. Aliás, foi inspirada por essa obra do Quinzinho que eu botei o Garrincha nessa imagem aí no topo do blog. Esse moço aí com a bola no pé, entre a bandeira do Brasil império e o Glauber Rocha, é o Garrincha.
O filme informa que o Garrincha era "guloso e com tendência a engordar" e que era rebelde nos treinos de preparo físico, no Botafogo. Eu fiquei olhando aquilo e pensando, se fosse hoje, um jogador assim, o Dunga não tinha escalado! Tinha ido pra Copa do Mundo sem Garrincha! Não tinha?
Na final da Copa de 58, ano que ganhou o primeiro título, o Brasil tinha maior famão de perdedor de finais.
Os comentaristas internacionais (...) não indicavam favoritos, mas achavam que se a Suécia fizesse o primeiro gol ganharia o jogo, porque os brasileiros iam perder a cabeça na certa.
E a Suécia fez o primeiro gol. Mas ao invés de se desestruturar, como fez a selecinha do Dunga ontem, o Brasil reagiu, o Garrincha fez bonito, o Pelé finalizou e a seleção de 58 saiu campeã com 5x2 em cima dos suecos.
A Copa de 62 foi mais dramática. Garrincha, gordinho e desinspirado, não deu o ar da graça nos dois primeiros jogos. O Pelé foi que meteu 2x0 nos mexicanos, e depois, contra a Tchecoslováquia no segundo jogo, distendeu a virilha e ficou de fora o resto da Copa. Sem Pelé, a brasileirada tava tensa no terceiro jogo contra a Espanha, mas Garrincha tomou chá de "encontrei-me" e praticamente ganhou a Copa sozinho. Salve Mané.
O futebol exerce sobre a emoção do povo um poder que só se compara ao poder das guerras. Leva o país inteiro da maior tristeza à maior alegria. Para explicar esse fenômeno, há duas teorias. Uma diz que a bola de futebol é um símbolo do seio ou do ventre materno, de modo que se compreende o ardor com que os jogadores disputam o jogo e a preocupação dos torcedores com o destino da bola. A outra teoria, mais sensata, diz que o povo usa o futebol para gastar o potencial emotivo que acumula por um processo de frustração na vida cotidiana. O universo lúdico do estádio é um campo mais cômodo para o exercício das emoções humanas. O último apito do juiz devolve o torcedor a sua realidade, aos caminho que vão e partem da segunda-feira até que o ciclo se feche com o primeiro apito dum novo jogo.
O Quinzinho passa a maior parte do tempo falando de Mané Garrincha, de Copas vencidas e da admiração do povo pelos jogadores até que, no minuto 45 do filme, ele entra com esse texto aí em cima e começa a desconstruir a imagem fofa que tinha estando montando. Imagem de violência extrema atrás de imagem de violência extrema, no campo e na arquibancada, seguida de uma moçada toda sorridente, e finalmente deixando o estádio e voltando pra ele no domingo seguinte, Quinzinho fecha o documentário numa clave crítica. Será mesmo legal manter o povo assim na sina de exercer sua emoções humanas num estádio de futebol? Ou seria melhor a gente aprender mais que logo a se libertar do ciclo do apito a apito e aprender a ser gente?
Agora então que acabou a Copa, melhor voltar a falar de arte e de política, né?
Garrincha alegria do povo (1963)
Documentário, 58 min.
Direção: Joaquim Pedro de Andrade
Roteiro: Joaquim Pedro de Andrade, Luiz Carlos Barreto, Armando Nogueira, Mário Carneiro, David Neves
E com vocês, a palavra dos especialistas. Sobre Garrincha, alegria do povo, Dom Glauber Rocha:
GARRINCHA E A VERDADE
Glauber Rocha
Analisar Garrincha oferece os dados finais para concluir um capítulo sobre as origens do Cinema Novo no Brasil; dispensa ao mesmo tempo, diante do próprio filme, perguntas e respostas precipitadas sobre o que é este Cinema Novo. Garrincha é o novo cinema nacional, assim como Vidas Secas e Sol sobre a Lama. Poderia caracterizá-lo como um cinema de autor realizado numa expressão técnico-estética, onde idéia e mise-en-scène significam um corpo ativo de realismo crítico. (...) Garrincha é um tipo de cinema-verdade e não cinema-verdade como um tipo de cinema. Exigindo um rigor terminológico, eu proponho o cinema de autor como cinema-verdade: para situá-lo como síntese Cinema Novo.
E Sêo Nelson Rodrigues:
À SOMBRA DAS CHUTEIRAS IMORTAIS
Nelson Rodrigues
(...) Amigos, eu tenho a maior desconfiança de qualquer documentário pelo seguinte: – o documentário é o mais burro dos gêneros. Isso por um lado. Por outro lado, o verdadeiro documentário é a poesia. Ou o sujeito recria poeticamente as coisas ou naufraga num pires d'água. (...) Se me perguntarem o que me impressionou mais na fita, eu diria: – as caras. Com a meticulosa, obsessiva paciência de um Proust visual, o Joaquim Pedro andou catando, no Maracanã, as reações fisionômicas da torcida. No ser humano, só a cara importa e o resto é paisagem. E, na fita, o que vemos é a máscara humana na sua infinita variedade. Uma coisa vos digo: – não há Nápoles, não há rio, ou mar, ou Via Láctea, ou aurora, ou poente que seja tão patético como as caras desdentadas que o Joaquim Pedro descobriu.
Ambos textinhos na página do filme no delicioso site da Filmes do Serro!
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sexta-feira, 25 de junho de 2010
Grande Otelo no Roda Viva
Eu estava passeando pela internet tentando decidir que filme com o Grande Otelo, além do Macunaíma do Quinzinho, eu devia assistir, quando encontrei, no site da TV Cultura, um Roda Viva com ele, de 1987.
Muito legal é notar que o Roda Viva é o mesmo desde faz esse tempão todo. Hoje em dia quem apresenta é o Heródoto Barbeiro, que eu curto demais, e em 1987, era o Rodolpho Gamberini. Mas o resto, é a mesma coisa. Sabe os twiteiros do Roda Viva? Que você manda perguntas por twitter e eles passam pros entrevistados? Então, já tinha! Mas era pelo telefone. O que é muito legal porque é de antes da época da "interatividade" com a tevê.
O Paulo Caruso estava lá também. Desenhando bem como sempre, mas olha a cara do Caruso nos anos 80, que pão!
Falando em pães, o Paulo Betti, que foi mencionado aqui num post de não faz muito tempo, estava lá também, na entrevista com o Grande Otelo. E mesmo que não seja o melhor dos diretores brazucas (mas que estava muito bacana em Lamarca e também de Ed Mort), não se estava de jogar fora nos anos 80. Olha só!
Eu sou muito fã do Roda Viva. Gosto muito de programas de entrevista, com o Bóris Casoy, o João Gordo, o Mojica Marins ou até a Marília Gabriela, mas o formato do Roda Viva é o melhor. Não é à toa que está no ar há quase 25 anos. Ano passado, durante as comemorações dos 40 anos da TV Cultura, eles reprisaram alguns Roda Viva antigos, e eu consegui ver um com a Dercy Gonçalves que foi muito bacana.
Além das entrevistas com artistas, sempre muito legais (a última que eu vi foi com os gêmeos Gabriel Bá e Fábio Moon, que gostam de fazer piada com a quantidade de gêmeos cartunistas no Brasil - os Caruso também são gêmeos), o Roda Viva prima mesmo é pelas entrevistas políticas. Brilhantes, brilhantes! Eu queria encontrar o clássico do Quércia esquentadinho (não achei nos arquivos do site, mas dá pra ver no youtube) e acabei tropeçando em... Luís Carlos Prestes! Aquele mesmo, da coluna Prestes do tenentismo, "marido" da Olga Benário que foi mandada pra Alemanha nazista pelo Vargas, o comunista. Deve ser uma entrevista magnífica (é de 1986, o programa)!
Fiquei tão empolgada em dividir o achado do Grande Otelo com vocês que não deu nem tempo de assistir o programa. Bora lá assistir, porque cinema, afinal, não é só a tela grande e os 90 minutos de ficção. É também a gente que faz, a história que traz e nosso envolvimento com ele. O objetivo do projeto é aumentar o envolvimento com o cinema brasileiro, não só ver os filmes. E o cinema acaba vazando para a tevê, e a tevê também tem uma história que pode ser querida. Roda Viva ou Programa Abertura, faz parte da experiência de quem curte imagem em movimento. Correto?

O próximo programa vai ser com a Dilma, e teve também um com o Serra e outro com a Marina, o que é muito bom porque pode te ajudar a decidir em quem você vai votar quando a Copa do Mundo acabar!
quarta-feira, 23 de junho de 2010
O cheiro do ralo
por Ítalo Rosendo
Baseado na obra do Lourenço Mutarelli (só sei porque fala no começo), tem como ator principal Selton Mello, que possui um jeito peculiar de interpretar, que combinou muito bem com o estilo pseudo-drama retratado.
O filme tem como tema central A Bunda e O Cheiro do Ralo; e em segundo plano tem O Olho. E a partir desses três itens inicia-se a trama.
Classifico esse filme como Cult e pra mim está na lista de filmes “mindfuck”, aqueles que nos fazem quebrar a cabeça por possuir tanto simbolismo e analogias realmente abstratas. Sofre um pouco do fardo clichê dos filmes brasileiros de possuir putaria, mas não é uma putaria qualquer, é uma putaria filosófica (?).
O protagonista é um cara muito perturbado e fudido, que trabalha comprando coisas velhas das pessoas pra revendê-las. E, por ser fudido, perturbado e infeliz, ele só isso tem a oferecer a tudo em volta dele.
Diálogos simples, monólogos simples, mas nessa simplicidade é possível extrair muita coisa para refletir. Além de tudo o ambiente e a linguagem corporal enriquecem bastante.
Concluindo minha pseudo-análise, o filme é muito bom, possui uma carga grande de reflexão se você conseguir captar o sentido real do que se mostra, talvez essas reflexões possam ser subjetivas, já que de tão profundas que são (ou não) o único modo de compreendê-las é ser tão perturbado e estranho quanto aquilo que se observa. Mas aí depende da onde vem mesmo o cheiro do ralo.
O cheiro do ralo (2007)
Comédia, 112 min.
Direção: Heitor Dhalia
Roteiro: Marçal Aquino e Heitor Dhalia, baseado em livro de Lourenço Mutarelli
Atores: Selton Mello, Paula Braun, Lourenço Mutarelli, Flávio Bauraqui, Fabiana Guglielmetti, Martha Meola, Susana Alves
Ítalo Rosendo é meu colega de faculdade, que foi um fofo de curtir o blog e escrever sobre o filme preferido dele. Eu também vi O cheiro do ralo, antes de começar o projetinho filmes brasileiros em 2010, e também gostei muito. Também é um dos filmes preferidos do meu namorado. Êita sucesso!
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sábado, 19 de junho de 2010
Cafundó
Há um tempinho, eu consegui trazer um professor meu pra fazer uma visita aqui no blog, o professor Marum lá da minha faculdade de Direito, e o cara curtiu tanto que, na terça-feira seguinte, ele me trouxe um filme pra eu assistir. Era o Cafundó. Meu namorado já tinha me falado pra ver esse filme, e uma outra professora lá da faculdade também fez uma indicação geral pra turma pra ver ele. Todos por motivos diferentes. A professora Daniela estava fazendo a gente ler Casa grande e senzala e Darcy Ribeiro, e queria que a gente observasse a coisa das relações de raça no fim do XIX, começo do XX. Meu namorado queria que eu visse por causa do João de Camargo, por ser um cara espiritualizado. O Marum? O Marum queria que eu visse ele no filme! "Depois você olha nos créditos finais e vê o que foi que eu fiz no filme."
Eu copiei o DVD dele e, na hora de ler os créditos finais, eles estavam fora de foco. Não sei o que foi que o Marum fez, se foi algum tipo de consultoria ou apoio. Manti os olhos bem abertos durante todo o filme procurando ele e não encontrei. Então, se foi figuração o que ele fez, só pode ter sido a mulher barbada.
O Paulo Betti me desculpe, mas, como execução, o filme tá bem fraquinho. A história é bacana e vocês vão ver quanta discussão o filme rende. Mas tá bem chatonildo. Mesmo assim, eu recomendo que vocês vejam, pela história, pela discussão. Especialmente se você for sorocabano, porque daí faz parte da sua história. Quando a gente é sorocabano, tem que fazer essas coisas, passear no Campolim, saber o que é um muar, assistir filme do Paulo Betti...
O João de Camargo é uma figura religiosa sorocabana. Meio espírita, meio candomblé, meio católico (adoro gente de três metades). Ele era meio curandeiro, meio milagreiro, meio santo. E fundou aqui uma Igreja que existe até hoje. A localização da capela é a coisa mais louca. Eu já sabia há muito tempo do João de Camargo, e também passei bastante tempo com o filme do Marum esperando na fila pra ser visto (antes de ver o filme, eu precisava terminar as leituras da matéria dele, viu, professor?), mas não sabia da tal da capela. Descobri do jeito mais prosaico. Eu estava no ônibus indo pro Campolim (coisa de sorocabano) e ouvi um homem pegar o celular e dizer "Já estou chegando aí, estou no ônibus, já, aqui do lado da igreja do João de Camargo." Aí eu olhei pro lado, e, sabe qual é a capela do Senhor do Bonfim João de Camargo? É aquela azul e branquinha, com o jardim bonitinho, que fica com desnível da rua lá na Barão de Tatuí! Minha vida inteira eu passei do lado dela e não sabia qual era!
O filme chama Cafundó por que o João morou um tempo lá. O Cafundó é uma comunidade remanescente de quilombo que fica em Salto de Pirapora, município a uns 50 quilômetros daqui. É uma comunidade antiquíssima, que passou a maior parte do tempo escondida da sociedade comum. Quando "acharam" eles lá, em 1978, eles não estavam no século XX, e falavam um dialeto diferente. Imagina só!
Eu fui pra lá uma vez, no meio da campanha que eles estavam fazendo lá pra conseguirem a posse da terra que ocupam há mais de 150 anos. A questão é que eu não me lembro com que grupo eu fui, se foi algum passeio de alguma organização negra sorocabana, ou algum grupo político. Eu lembro de ter visto um ritual religioso que me impressionou horrores (eu nunca fui em terreiro de candomblé nem nada parecido, tudo que eu vi de ritual religioso foram umas missas e, mesmo assim, bem poucas), com música e dança e roupas especiais. Lembro que foi lá a última vez que andei a cavalo. Quase caí. Isso foi há mais de dez anos.
Saiu esses dias o Estatuto da Igualdade Racial. A questão da posse da terra por comunidades remanescentes de quilombos ficou de fora. Ali no Cafundó, a coisa deu certo, depois de muita luta. Eu li na internet que a comunidade, que ocupava tradicionalmente 218 hectares, ganhou em 1976 a posse de 21 hectares. Bonita coisa pra uma sociedade agrícola. Continuaram batalhando e, finalmente, em 2004, conseguiram os 218 hectares que eram deles e haviam sido ocupados, ao longo do tempo, por fazendeiros da região. O artigo menciona mortes dos dois lados.
Uma vez eu tomei uma cerveja com uma mulher que participou da figuração do Cafundó, dançando. Conheci ela ali no Bozó, que fica, aliás, pertinho da igreja do João de Camargo. Era carnaval, e a gente já estava bem trilili, cantando samba e tudo o mais, quando o papo do Cafundó surgiu. Ela falou que fez o filme e eu falei que tinha ido lá. Ela ficou passadíssima, dizendo que queria ir muito lá, como se, de alguma maneira, o quilombo fosse parte da origem dela. Acho improvável, considerando que é um grupo fechadíssimo de umas 20 famílias, mas a questão é que o Cafundó virou parte da tradição negra por aqui. Pode não ser vistoso como Palmares, mas o Domingos Jorge Velho não achou esse aqui.
Cafundó (2005)
Drama, 100 min.
Direção: Clóvis Bueno e Paulo Betti
Roteiro: Clóvis Bueno
Atores: Lázaro Ramos, Leona Cavalli, Leandro Firmino, Francisco Cuoco, Flávio Bauraqui, Alexandre Rodrigies, Luis Melo
Em tempo: piadas à parte, o professor Marum me informou ontem, depois da prova, que foi dureza, que ele ajudou a financiar o filme, por ter achado o projeto bacana e ser amigo do Paulo Betti. Me disseram que o filme demorou à beça pra sair por causa da dificuldade de levantar a grana pra financiar, mas finalmente rolou, em parte por ajuda do Marum. Três vivas!
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